sábado, 20 de agosto de 2011

O Corvo


















(de Edgar Allan Poe)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Caso 39

























Elenco:
Renée Zellweger, Jodelle Ferland, Ian McShane, Bradley Cooper, Kerry O'Malley, Callum Keith Rennie, Adrian Lester



Ainda na ressaca da Nardonimania, estreia por aqui o filme de 2007 Caso 39 (Case 39). No suspense, Renée Zellweger interpreta Emily, uma assistente social que consegue impedir que um casal desnaturado mate a filha de dez anos, Lilith (Jodelle Ferland). Qualquer semelhança oportunista com a realidade, porém, para por aí.

A ficção tem suas reviravoltas, e a de Caso 39 não é difícil de adivinhar. Nem se trata de spoiler. O espectador que não suspeitava antes - as referências religiosas, a começar pelo nome da menina, são marteladas ostensivamente desde o momento em que a câmera enfoca a ficha do caso 39 - rapidamente descobre que Lilith não é exatamente uma criança comportada.

A revelação precoce potencializa a vocação de Caso 39 para o humor involuntário. O primeiro filme dirigido em Hollywood pelo alemão Christian Alvart (que depois faria Pandorum), também o primeiro terror com Zellweger desde que ela atuou em The Return of the Texas Chainsaw Massacre em 1994, é uma trasheira só.

Zellweger colabora bastante - com o cabelo molhado ela fica a cara de John Travolta em A Reconquista - mas a comicidade vem, antes, da forma como o roteiro estabelece a personagem. Em suspenses desse tipo, a protagonista é sempre influenciável - por isso vem habitualmente acompanhada de "contrapesos", dois coadjuvantes que personificam pensamentos opostos, como o cético e o crente, aqui representados por Ian McShane e Bradley Cooper. O problema em Caso 39 é que Emily é muito mais influenciável do que o normal.

Repare na velocidade com que ela, primeiro, decide que o melhor é morar com Lilith. Depois, dentro da trama, não deve passar um dia inteiro, e Emily já está convencida de que a menina é do mal. Ao mesmo tempo, basta para a protagonista assistir ao depoimento em vídeo dos pais homicidas (pressume-se que a assistente social já deveria ter feito isso) para mudar de ideia e aderir ao ponto de vista deles.

O sucesso de um suspense (e de filmes em geral) depende, antes de mais nada, da nossa identificação com o drama do protagonista. Mas quem iria se identificar com uma personagem sem personalidade como Emily? Há heróis de ficção que tomam decisões erradas - eles não deixam de gerar empatia por isso - mas até mesmo para tomar uma decisão errada é preciso fazê-lo com convicção.

O filme tem uma cena boa, justamente a única que consegue inverter nossa expectativa: quando o celular toca abafado debaixo do colchão e imaginamos ser o rosnado dos cães da cena anterior. De resto, Caso 39, em cenas que deveriam causar medo, não vai além da sessão de sadismo. A diversão é acompanhar Renée Zellweger fazendo caras e bocas porque, afinal, uma boçal como Emily merece















Link original: http://www.omelete.com.br/cinema/critica-caso-39/

sábado, 4 de junho de 2011

Solitária
















Quando você ler esse bilhete
Já estarei na rodoviária
Quem sabe até na alta estrada

Viajei pra um cidade
Chamada solitária
Cansei de ser joguete cacete
Cansei de ser tão maltratada
Cansei de ser joguete cacete
Cansei de ser tão maltratada

Deixei bife e arroz no microondas
Joguei na privada aquela rosa
E a aliança eu deixei pra você pagar as contas
Não levo comigo celular nem a escova
Somente sua lâmina de barbear
E uma desesperança

Chegando lá vou ficar bêbada de querosene
Vou raspar os cabelos até perder a cabeça
Vou cometer haraquiri
Mesmo sabendo que nesse momento você ri

A banda mais bonita da cidade

Mentes Perigosas




















Ser consciente é ser capaz de amar

Como visto na aula do professor Osvaldo, o termo consciência é ambíguo, sugerindo dois significados totalmente distintos. E por isso mesmo, é compreensível que a esta altura o leitor esteja confuso. Na realidade, a consciência é um atributo que transita entre a razão e a sensibilidade. Popularmente falando, entre a "cabeça" e o "coração".

Falar sobre consciência pode ser uma tarefa "fácil" e "difícil" ao mesmo tempo. O "fácil" são as explicações científicas sobre o desenvolvimento da consciência no cérebro, que envolvem engrenagens como atenção, memória, circuitos neuronais e estruturas cerebrais, que só serviriam para confundir um pouco mais. Nada disso vem ao caso agora, pelo menos não é esse o meu propósito. Portanto, esqueça! Aqui, vou considerar o lado "difícil", subjetivo e relativo ao sentido ético da existência humana: o SER consciente.

Mostrar apreço às condutas louváveis, ser bondoso ou educado, ter um comportamento exemplar e cauteloso, preocupar-se com o que os outros pensam a nosso respeito nem de longe pode ser definido como consciência de fato. Afinal, a consciência não é um comportamento em si, nem mesmo é algo que possamos fazer ou pensar. A consciência é algo que sentimos. Ela existe, antes de tudo, no campo da afeição ou dos afetos. Mais do que uma função comportamental ou intelectual a consciência pode ser definida como uma emoção.

Peço licença e vou um pouco além. No meu entender, a consciência é um senso de responsabilidade e generosidade baseado em vínculos emocionais, de extrema nobreza, com outras criaturas (animais, seres humanos) ou até mesmo com a humanidade e o universo como um todo. É uma espécie de entidade invisível, que possui vida própria e que independe da nossa razão. É a voz secreta da alma, que habita em nosso interior e que nos orienta para o caminho do bem.

A consciência nos impulsiona a tomar decisões totalmente irracionais e até mesmo com implicações de risco à vida. Ela permeia as nossas atitudes cotidianas (como perder uma reunião de negócios porque seu filho está ardendo em febre) e até as nossas ações de extrema bravura e de auto-sacrifício (como suportar a dor de uma tortura física e psicológica em função de um ideal). E, assim, a consciência nos abraça e conduz pela vida afora, porque está em plena comunhão com o mais poderoso combustível afetivo: o amor.

De forma bem prosaica, imagine a seguinte situação:

Você está no aconchego do seu apartamento, depois de um dia exaustivo de trabalho e reuniões. Momentos depois, o interfone toca anunciando a visita inesperada de uma grande amiga. Ela está grávida de sete meses e chegou abarrotada de sacolas com as últimas compras do enxoval. Apesar do cansaço, você fica verdadeiramente feliz com sua presença.

Por alguns momentos, vocês conversam alegremente sobre o bebê, os planos para o futuro e colocam as "fofocas" em dia. Lá pelas tantas da noite, sua amiga diz que precisa ir embora.

Em frações de segundos, você pensa: "Preciso tomar um banho e dormir, será que ela vai entender se eu não acompanhá-la até a portaria do prédio?", "Mas ela está grávida e tem tanta coisa pra carregar!", "É melhor eu ir junto, não foi isso que me ensinaram."

Bom, essa tagarelice mental, que azucrina tal qual um crime cometido, sem dúvidas não é imoral. É absolutamente humana, natural e foge ao nosso controle. Mas também não é a sua consciência soprando no seu ouvido.

Ao contrário do "vou ou não vou", você é imediatamente tomado por um impulso generoso e se flagra no elevador com sua amiga, suas bolsas e sacolas. Chama um táxi, abre a porta do carro, diz ao motorista para ir com cuidado e se despedem felizes.

Hum! A consciência é assim mesmo: chega sem avisar e não complica, apenas faz!

Uma história mais comovente:

São Paulo, domingo, novembro de 2007. Cerca de três minutos após ter decolado do aeroporto Campo de Marte, um Learjet 35 caiu de bico sobre uma residência, onde moravam 14 pessoas de uma mesma família. No acidente morreram o piloto, o co-piloto e seis pessoas que estavam na casa. Os vizinhos Airton, de 47 anos, e seu pai, o sr. Ângelo, de 75, correram para o sobrado da família Fernandes assim que ouviram o barulho da queda do avião. Pai e filho conseguiram salvar Cláudia Fernandes, de 16 anos. Eles ouviram o choro da garota, que é autista e brincava com sua amiga Laís na hora do acidente. Airton, emocionado, descalço e com a blusa suja de sangue e cinzas, lamentava ter conseguido salvar apenas uma única vida. O sr. Ângelo queimou a mão ao salvar Cláudia e, após ser atendido por médicos no local, permaneceu na rua tentando furar o bloqueio policial para voltar aos escombros.

Sem qualquer sombra de dúvidas, podemos afirmar que Airton e Ângelo possuem consciência. E naquela tarde de domingo, eles não pensaram, simplesmente agiram: isso é pura consciência em exercício.

Todas as pessoas portadoras de consciência se emocionam ao testemunhar ou tomar conhecimento de um ato altruísta, seja ele simples ou grandioso. Qualquer história sobre cons ciência é relativa à conectividade que existe entre todas as coisas do universo. Por isso, mesmo de forma inconsciente (sem nos darmos conta), alegramo-nos frente à natureza gentil dos atos de amor.
Ana Beatriz Barbosa Silva

Trecho

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Chapeuzinho Vermelho




















Era uma vez...

Uma garotinha que tinha que levar pão e leite para sua avó. Enquanto caminhava alegremente pela floresta, um lobo apareceu e perguntou-lhe onde ia.

À casa da vovó - respondeu ela prontamente.

O Lobo muito esperto, chegou primeiro à casa, matou a vovó, colocou seu sangue numa garrafa, fatiou sua carne num prato, comeu e bebeu satisfatoriamente, guardou as sobras na despensa, colocou sua camisola e esperou na cama.
Toc. Toc. Toc. Soou a porta.

Entre, minha querida - disse o lobo.
Eu trouxe o pão e o leite para a senhora, vovó - respondeu Chapeuzinho Vermelho.
Entre minha querida. E coma algo, tem carne e vinho na despensa - disse o lobo.



A Menina comeu o que lhe foi oferecido, e enquanto comia o gato de sua vó a observava aos murmúrios:

"Meretriz! Então, comes a carne e bebes o sangue de tua avó com gosto. Ata teu destino ao dela."

Então o Lobo disse:

Dispa-se e venha para cama comigo
O que faço com meu vestido? - questionou Chapeuzinho.
Jogue na lareira. Não precisará mais disso - respondeu o lobo.

E para cada peça de roupa que a garota retirava, copete, anágua, meias, a garota refazia a mesma pergunta, e o lobo respondia:

"Jogue na lareira. Não precisará mais disso"

Então a garota deitou-se ao lado do lobo, e ao sentir o toque do pelo roçar em seu corpo disse:

Como a senhora é peluda vovó – exclamou Chapeuzinho
É para te esquentar, minha neta - respondeu o lobo.
Que unhas grandes a senhora tem!
São para me coçar, minha querida
Que dentes grandes a senhora tem!
São para te comer

E então a devorou.

Charles Perrault

Quo Vadis, Domine?

























CARRACCI, Annibale
Domine quo vadis?
1601-02
Oil on panel, 77,4 x 56,3 cm
National Gallery, London





Quo Vadis, Domine? vem do latim e significa, "Para onde vais, Senhor?", baseada em livros apócrifos, as quais dizem que Jesus apareceu a Pedro, quando este deixava Roma, dizendo para voltar. O apóstolo perguntou: "Para onde vais, Senhor", segundo estes livros, Jesus disse que "Estava indo para Roma para ser crucificado novamente".


"E agora vou para aquele que me enviou; e nenhum de vós me pergunta: Para onde vais?"

Jo.16:5

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ilha do Medo





















Shutter Island
EUA , 2010 - 138
Policial / Suspense

Direção:
Martin Scorsese

Roteiro:
Laeta Kalogridis, Dennis Lehane

Elenco:
Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, Ted Levine



***
Crítica

Surge do meio da neblina, como o carro no começo de Taxi Driver, a balsa que leva o agente federal Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) à Ilha do Medo. Se o autor do livro que serve de base ao filme, Dennis Lehane, já dizia que a sua ideia era homenagear gêneros, dos filmes B aos terrores góticos, na adaptação Martin Scorsese também abraça as múltiplas referências - a começar pela referência a si mesmo.

Como em Taxi Driver, a neblina é um enigma, simboliza um tormento. No caso, descobrimos rapidamente que Teddy está chegando ao presídio psiquiátrico na ilha Shutter, acompanhado do agente Chuck Aule (Mark Ruffalo), não só para investigar o desaparecimento de uma paciente, como também para resolver questões particulares que o assombram desde a morte de sua esposa, Dolores (Michelle Williams).

A partir daí a colagem de referências é tão intensa que Scorsese parece estar jogando pistas falsas para incitar interpretações do espectador. Filme de guerra (seria o hospital uma espécie de campo de concentração?), filme policial (estaria Teddy, como todo detetive de noir, sendo vítima de uma conspiração?) e filme-delírio (o que afinal é real na Shutter Island?) se misturam. Até o título nacional, que sugere um suspense sobrenatural, entra involuntariamente nesse jogo de espelhos.

E aí vai muito da disposição do espectador para entrar na brincadeira. Se você se incomoda com a mania de Lost, por exemplo, de apresentar novos personagens a cada temporada, vai se irritar com a quantidade de gente que, numa razão de 15 em 15 minutos, aparece do nada em Ilha do Medo. Herança dos filmes B, por sua vez, os diálogos variam do genérico ("o cais é o único caminho para entrar e o único para sair") ao hiperexpositivo (conte quantas vezes eles repetem que a Ala C é onde ficam os mais perigosos...).

O que deve agradar os fãs de Scorsese é acompanhar como o cineasta, um assimilador de referências por natureza, usa de seu estoque formal para se adequar às regras do gênero. Se a ideia é confundir o espectador, como nas cenas em que Teddy se encontra com Dolores, ele quebra o eixo de câmera descaradamente para "duplicar" Dolores (o que na mão de qualquer outro seria visto apenas como barbeiragem). Se o objetivo é exagerar na tensão, vamos logo de John Cage e "Music for Marcel Duchamp" na trilha sonora.

Ademais, quem mais abusaria de chicotes (aquelas pans rápidas que vão de um personagem a outro sem corte) de forma tão temerária? Ilha do Medo tem alguns momentos constrangedores (estátua de fauno, sério mesmo?) e outros transcendentais, como os flashbacks do Holocausto - um Holocausto meio barroco, reimaginado sob influência da química do hospício, o que não deixa de ser interessante. Ambos os extremos têm seu apelo. Não trata-se de tentar tirar uma média, mas de acompanhar, com certo prazer, como Scorsese passa do sublime ao desastroso sem se abalar.

No fim, olhando para os trabalhos do diretor na última década, recebidos de forma amistosa pela crítica e pela mídia, não é difícil aferir que Ilha do Medo é o mais ousado, para o bem e para o mal. Será recebido com opiniões polarizadas, mas pelo menos fica o alívio de que, depois do Oscar, o diretor não se acomodou.

***


O filme prende atenção do começo ao fim, definitivamente maravilhoso!



link original: http://www.omelete.com.br/cinema/critica-ilha-do-medo/

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O resto da história
























Anuciação - el greco - 1595


No ano 1815, Napoleão juntava as forças Francesas em Waterloo para sua batalha contra o Duque Wellington e as tropas inglesas, belgas e holandesas. A história nos ensina que Napoleão foi derrotado em Waterloo. Mas, como foi que as pessoas que viviam em 1815 souberam da notícia?

Para levar a notícia da batalha de Waterloo para a Inglaterra, um navio britânico mandou um sinal para um homem na costa, que depois assinalou para outro num morro distante, e assim adiante pela Inglaterra. A primeira palavra enviada foi “Wellington”. A palavra seguinte foi “derrota”. Daí veio uma neblina intensa e a mensagem parou.

Como dá para imaginar, por toda a Inglaterra, o povo chorou e perdeu o ânimo pela mensagem de duas palavras “Wellington derrota”. Mas, quando a neblina se dissipou, foram enviadas mais duas palavras “o inimigo”. O desespero se converteu em júbilo.

Eis o meu ponto. O que você acha que os discípulos pensaram de Jesus quando viram os eventos que se passaram na sexta-feira da crucificação? Mas, sexta-feira só tinha uma parte da mensagem. O resto da história foi declarado no Domingo através do túmulo vazio. O desespero se converteu em júbilo.

(Jesus) estava ensinando aos seus discípulos. E lhes dizia: “O Filho do homem está para ser entregue nas mãos dos homens. Eles o matarão, e três dias depois ele ressuscitará”. Mas eles não entendiam o que ele queria dizer e tinham receio de perguntar-lhe. Marcos 9:31-32
de Steve Higginbotham no site www.iluminalma.com.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Monarquia























Famous Persons Dante Allighieri -1450 ANDREA DEL CASTAGNO



Em "Monarquia",Dante deixa transparecer seus profundos conhecimentos de filosofia e o domínio com que cita inumeráveis passagens bíblicas. Escrito durante anos degrandes questionamentos e controvérsias envolvendo a autoridade papal em confronto com a autoridade do imperador,Dante elaborou este opúsculo em que defende a independência total do imperador, no exercício de seu poder, de qualquer ingerência da autoridade eclesiástica,particularmente do papa. Monarquia mostra um Dante Alighieri de idéias abertas, sobretudo no campo político, defendendo não somente a independência do poder civil da propalada supremacia do poder espiritual ou religioso sobre ele,mas também a total sepração desses dois poderes para o bem-estar do próprio mundo. De fato, a união de Igreja e Estado só troxe problemas para ambos.


cont...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Judite e Holofernes

















Judith Beheading Holofernes 1598 - Caravaggio





1. Quando se fez tarde, a gente de Holofernes retirou-se. Bagoas fechou a tenda por fora, depois de fazer com que todos os servos saíssem. Todos foram repousar, prostrados pelo excesso de bebida.
2. Na tenda, ficaram apenas Judite e Holofernes caído na cama, completamente embriagado.
3. Judite tinha dito à serva que ficasse do lado de fora do quarto, esperando que ela saísse, como nos outros dias. Tinha dito que sairia para rezar, e já havia falado disso a Bagoas.
4. Todos saíram. Não ficou mais ninguém no quarto, nem pequeno nem grande. Então, de pé e junto ao leito de Holofernes, Judite rezou interiormente: «Senhor Deus de toda a força, volta agora o teu olhar para o que eu estou para fazer em favor da exaltação de Jerusalém.
5. Chegou o momento de ajudares a tua herança e dares sucesso ao meu plano, ferindo o inimigo que se levantou contra nós».
6. Então Judite aproximou-se da coluna da cama, que ficava junto à cabeça de Holofernes, e pegou na espada dele.
7. Depois chegou perto da cama, agarrou na cabeleira de Holofernes, e suplicou: «Dá-me força agora, Senhor Deus de Israel».
8. E com toda a força, deu dois golpes no pescoço de Holofernes e cortou-lhe a cabeça.
9. Rolou o corpo do leito e tirou o mosquiteiro das colunas. Depois saiu, entregou a cabeça de Holofernes à serva,
10. que a colocou na sacola de alimentos. E saíram juntas, como de costume, para rezar. Atravessaram o acampamento, rodearam o vale, subiram a encosta de Betúlia e chegaram à porta da cidade.
11. Judite gritou de longe às sentinelas das portas: «Abri! Abri a porta! O Senhor nosso Deus está connosco, demonstrando ainda a sua força em Israel e o seu poder contra o inimigo. Isso acaba de acontecer hoje».
12. Os homens da cidade ouviram, desceram logo até à porta e convocaram os anciãos.
13. Adultos e crianças, todos vieram a correr. Parecia-lhes incrível que Judite tivesse voltado. Abriram a porta e receberam-nas. E logo fizeram uma grande fogueira para fazer claridade, e ajuntaram-se ao redor delas.
14. Judite começou a gritar: «Louvai a Deus! Louvai a Deus! Louvai a Deus que não retirou a sua misericórdia da casa de Israel. Nesta noite, Ele matou o inimigo através da minha mão».
15. Então Judite tirou a cabeça de Holofernes que estava na sacola, mostrou-a e disse: «Esta é a cabeça de Holofernes, general do exército da Assíria. Este é o mosquiteiro, debaixo do qual ele dormia embriagado. O Senhor matou-o pela mão de uma mulher.
16. Viva o Senhor, que me protegeu no meu plano. Juro-vos que o meu rosto seduziu Holofernes, para a sua ruína, mas ele não me fez pecar. A minha honra está intacta».
17. Todos ficaram assombrados e, inclinando-se em adoração a Deus, disseram a uma só voz: «Bendito sejas, nosso Deus, porque hoje aniquilaste os inimigos do teu povo!»
18. E Ozias disse a Judite: «Que o Deus Altíssimo te abençoe, minha filha, mais que a todas as mulheres da Terra. Bendito seja o Senhor Deus, criador do Céu e da Terra, que te guiou para cortares a cabeça do chefe dos nossos inimigos.

Fonte: livro de Judite, Biblía Católica

Sansão e Dalila



















The Capture of Samson -1630 - COUWENBERGH, Christiaen van




Sansão, cujo nome significava "homem do sol", era um nazareno dotado de extraordinária força. Era um dos juízes bíblicos cuja história está descrita no Livro dos Juízes (13-16) e no Novo Testamento (Hebreus 11,32).

Conta-se que Deus terá chamado Sansão para libertar o povo de Israel que vivia dominado pelo Filisteus. Estes, que tinham um medo enorme da força do nazareno, tentavam sem sucesso prender Sansão. Os governantes filisteus, sabendo da paixão de Sansão pela finisteia Dalila, aliciaram a jovem, com 1100 moedas de prata, a descobrir a origem da força invencível de Sansão. Dalila amava Sansão, mas este amor era inferior ao que sentia pelo seu povo. Com o seu grande poder de sedução, Dalila tentou não só desvendar de Sansão o segredo da sua força, como também arranjar uma forma para que ele fosse dominado pelos finisteus.

Primeiramente, Sansão disse-lhe que ficaria vulnerável como qualquer outro homem, se o amarrassem com sete fibras novas de arco que não tivessem sido secas. Dalila atou Sansão com as sete fibras, durante o sono mas, quando os Filisteus chegaram para o levar, ele arrancou as fibras sem dificuldade.

À segunda tentativa de Dalila, Sansão disse-lhe que seria, facilmente, dominado se fosse amarrado por cordas novas, mas também destas se libertou, sem custo, quando chegaram os Filisteus.
A terceira versão de Sansão foi tão falsa como as duas anteriores, pois quando Dalila teceu as sete madeixas do cabelo de Sansão com uma rede e as apertou com um gancho, durante o sono de Sansão, este voltou a libertar-se facilmente. Foi então que Dalila (não se sabe através de que artes) conseguiu saber o segredo da força de Sansão.

Este disse-lhe que, se os seus cabelos fossem cortados, a sua força abandoná-lo-ia e ficaria fraco como uma criança. Sansão adormeceu no colo de Dalila e esta, suavemente, cortou-lhe os caracóis dos cabelos. Acordado pela chegada dos Filisteus, Sansão acreditava ainda ter força, mas foi rapidamente dominado pelos soldados, que lhe perfuraram os olhos e o prenderam com algemas de bronze.

Sansão foi exposto e humilhado, publicamente, no caminho do templo de Dagôn, onde foi amarrado aos dois pilares que sustentavam o enorme edifício. A população juntou-se aos milhares para ver a derrota de Sansão e este, num último esforço, pediu a Deus que lhe devolvesse a força, por instantes. Foi, então, que Sansão, heroicamente, fez ruir os pilares, causando a destruição do templo e, consequentemente, a morte dos Filisteus, de Dalila e do próprio Sansão.




Como referenciar este artigo:
Sansão e Dalila. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-01-24].
Disponível na www: .

sábado, 15 de janeiro de 2011

Cronologia - Maria Antonieta

Destino de Rainha





















BEZZUOLI, Giuseppe - Marie Antoinette, Archduchess of Tuscany -1836






Por Graziella Beting

Destino de Rainha
1755 Nasce Maria Antônia Josefa Joana de Habsburgo, em Viena, Áustria

1770 Casamento com Luís Augusto (futuro Luís XVI), selando a aliança franco-austríaca

1774 Morte de Luís XV e coroação de Luís XVI

1778 A França se endivida para sustentar a guerra de independência americana.
Nasce a primeira filha do casal, Maria Teresa Carlota

1781 Nasce o delfim, Luís José Xavier Francisco

1788 A dívida francesa chega a 318 milhões de libras, metade do orçamento do Estado. Maria Antonieta ganha o apelido de "Madame Déficit"

1789 Em junho, morre o delfim Luís José. Em julho, é proclamada a Assembléia Nacional Constituinte, seguida da Queda da Bastilha

5 e 6 de outubro de 1789 Marcha para Versalhes para pedir pão (Jornadas de Outubro). A família real se instala em Paris

1791 Luís XVI, Maria Antonieta e os filhos tentam fugir da França. Reconhecidos, são obrigados a voltar

1792 Em agosto, o rei é deposto e vai, com sua família, para a Prisão do Templo. Em setembro, é proclamada a República

2 de agosto de 1793 Maria Antonieta é transferida para a prisão da Conciergerie

16 de outubro de 1793 Maria Antonieta é guilhotinada














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